quarta-feira, 29 de abril de 2009

Os 50 artistas mais loucos segundo a revista Blender

Veja abaixo (em ordem decrescente) a lista completa:

50. Elton John (Consumidor de grandes proporções de cocaína, o cantor inglês casou-se com sua engenheira de som em 1984, negando que fosse gay.)

49. Britney Spears (Nova melhor amiga de Paris Hilton, foi fotografada sem calcinha na balada, logo depois de ter tido seu segundo filho. Rompeu com o marido por celular. Raspou a cabeça e fez duas novas tatuagens.)

48. R. Kelly (Astro do pop R&B, casou-se escondido com a cantora Aaliyah quando ela tinha 15 anos. Além do gosto por pornografia infantil, é conhecido por usar a mesma cueca por vários dias seguidos.)

47. Jim Morrison (O líder do The Doors casou-se com uma bruxa em Nova York. O casal bebeu o sangue um do outro em um ritual. Nos anos 60, abria as portas da percepção usando boas quantidades de LSD. Morreu na banheira em 1971, aos 27 anos.)

46. Sid Vicious (Bateu em fãs do Sex Pistols com uma guitarra em um show em 1978. Foi acusado de matar a namorada, Nancy Spungen, encontrada morta no banheiro. Morreu de overdose em 1979.)

45. James Taylor (O cantor e compositor internou-se em um hospital aos 17 anos com depressão e compôs as primeiras músicas durante o período em que esteve se tratando. Três anos depois de sair, deu entrada em um sanatório, época em que estava viciado em heroína.)

44. Chuck Berry (Processado por 60 mulheres que o acusaram de filmá-las no banheiro de seu restaurante no Missouri, defendeu-se alegando que elas – as “fãs” – é que teriam “posado” para ele.)

43. Mariah Carey (Dona de hábitos excêntricos, como cuspir chicletes nas mãos dos assistentes, a cantora recebeu US$ 5 milhões da gravadora para deixar a empresa.)

42. Little Richard (Um dos precursores do rock n’roll, renunciou à música devido aos sinais divinos. Foi preso diversas vezes por abuso de cocaína, ficou esquizofrênico e quase foi baleado.)

41. David Bowie (Pioneiro do glam-rock e adepto da cocaína. Nos anos 70, achou que satã estava em sua piscina em Los Angeles e encenou um exorcismo.)

40. Serge Gainsbourg (A obra do compositor francês inclui um dueto com a filha, Charlotte Gainsbourg, na época aos 14 anos, sobre incesto. “Há uma trilogia em minha vida, um triângulo eqüilátero de Gitanes [marca de cigarro], alcoolismo e garotas”, declarou.)

39. Miles Davis (Trumpetista viciado em heroína desde os anos 50, foi resgatado das ruas pelo músico Clark Terry. Infame espancador de mulheres.)

38. Carlos Santana (Adepto do ácido lisérgico, tocou guitarra em Woodstock pensando que fosse uma cobra. Disse que encontrou um anjo e ele tinha a cara de Papai Noel.)

37. Arthur Lee (Em 1968, ele e sua banda, Love, adotaram uma dieta de maconha, ácido e heroína para compor “Forever changes”. Foi para a cadeia e lá diz ter encontrado Deus.)

36. Elvis Presley (Usuário de anfetamina desde os tempos em que servia o exército, tomou 19 mil doses de pílulas prescritas por seu médico nos anos 70. Algumas semanas antes de morrer, ligou para o presidente americano Jimmy Carter dizendo que era perseguido por forças sinistras.)

35. Ian Curtis (Líder do Joy Division, sofria de epilepsia e tinha crises no palco. Na noite da primeira turnê americana da banda, enforcou-se na cozinha aos 23 anos.)

34. Lou Reed (Líder do Velvet Underground, seus pais o submetiam a sessões de eletrochoque porque pensavam que ele fosse gay. Em 1975, lançou “Metal machine music”, um álbum com quatro lados de barulho eletrônico inaudível.)

33. Sinéad O’Connor (A cantora recusou quatro indicações ao Grammy, defendeu o Exército Republicano Irlandês - IRA -, rasgou uma foto do Papa João Paulo II durante o programa “Saturday night live”.)

32. George Clinton (Criador dos grupos Parliament e Funkadelic nos anos 60, costumava pular de um caixão e encorajava outros músicos a simular sexo no palco.)

31. Lee “Scratch” Perry (Respeitado produtor de dub e reggae jamaicano, pôs fogo no próprio estúdio em 1980. Com apresentações marcadas no Brasil em 2002 – e ingressos esgotados – cancelou tudo na última hora, pois recusou-se a embarcar, alegando que o bilhete de avião estava amaldiçoado.)

30. Alexander “Skip” Spence (Co-fundador do Jefferson Airplane, viciado em drogas e esquizofrênico. Depois de um dia cheio de heroína, avançou sobre o baterista do Moby Grape, Don Stevenson, com um maçarico.)

29. Rick James (Produtor e compositor da Motown, usuário de cocaína nos anos 80, gastou quase US$ 2 milhões em drogas. Comprou uma jaqueta de US$ 28 mil e só mais tarde percebeu que não servia.)

28. Wendy O. Williams (Stripper e vocalista da banda punk Plasmatics, usava moicano e explodia equipamentos da banda durante os shows. Em 1991, passou a trabalhar com reabilitação de animais. Suicidou-se com um tiro em 1998.)

27. Keith Moon (Baterista do The Who, colocava pólvora no instrumento enquanto aparecia ao vivo na televisão, corria pelado em volta de ônibus com garotas colegiais, circulava pela área judia de Londres vestido em uniforme nazista. De tanto beber e usar drogas, morreu em 1978, ainda jovem.)

26. Iggy Pop (Foi um dos precursores do punk ao lado dos Stooges em 1967. Geralmente se cortava ou andava sobre cacos de vidro no palco.)

25. John Frusciante (Em 1992, o guitarrista do Red Hot Chili Peppers se afastou da banda porque vozes o aconselhavam a tomar heroína e cocaína. Foi o que ele fez pelos seis anos seguintes, até seus dentes caírem. Em 1998, completou o tratamento de reabilitação e voltou ao grupo.)

24. Capitain Beefheart (músico psicodélico, amigo de Frank Zappa, escrevia faixas de nomes estranhos como “Sorvete para os corvos”.)

23. G.G. Allin (conhecido por sua escatologia e violência, o roqueiro punk tentou fazer, em um show, sexo com um gato morto.)

22. Jerry Lee Lewis (um dos grandes nomes do rock chocou os EUA quando casou-se com sua prima de 13 anos, além de ter sido preso e casado com duas mulheres - tudo isso antes do 21 anos.)

21. Julian Cope (cantor inglês que adorava deuses nórdicos e se recusava a definir o calendário entre “antes de Cristo” e “depois de Cristo”.)

20. Ike Turner (ex-marido de Tina Turner, a quem batia freqüentemente, se casou 13 vezes em sua vida.)

19. Daniel Johnston (Músico americano que sofria de problemas psicológicos. Uma vez disse que seu pai, no momento em que pilotava um avião, era o próprio Diabo.)

18. Liza Minelli (um de seus casamentos acabou em uma ação de US$ 10 milhões em que o ex-marido dizia que ela só ficava sóbria o suficiente para espancá-lo.)

17. Jim Gordon (co-autor de “Layla”, sucesso com Eric Clapton. Matou a própria mãe.)

16. Sun Ra (pianista de jazz. Dizia que tinha vindo do planeta Saturno.)

15. Roky Erickson (fundador da banda psicodélica 13th Floor Elevators. Após passar anos em um sanatório, ligava rádios e TVs em sua casa no Texas para “abafar” vozes.)

14. Jaz Coleman (integrante do grupo Killing Joke. Fugiu para a Islândia para fugir do que pensava ser o “apocalipse”.)

13. Courtney Love (a viúva de Kurt Cobain tem no currículo uma série de prisões por arruaça e posse de remédios sem prescrição.)

12. Kevin Rowland (líder da banda Dexy’s Midnight Runners que, primeiro proibiu drogas no grupo, depois se viciou em cocaína e, mais tarde, mudou sua imagem aparecendo com um vestido e calcinhas brancas.)

11. Adam Ant (cantor inglês que, ao ser ironizado em um bar por seu chapéu, atirou uma peça de um carro pela janela.)

10. Ozzy Osbourne (o ex-cantor do Black Sabbath, entre outras maluquices, chegou a morder a cabeça de um morcego de verdade em um show.)

9. Ol’ Dirty Bastard (o rapper teve uma série de prisões por drogas e também é conhecido por declarações amalucadas.)

8. Euronymous (cantor de black metal norueguês comeu o pedaço do cérebro de um ex-companheiro de banda.)

7. Syd Barrett (o primeiro líder do Pink Floyd acabou virando um recluso por décadas após enfrentar problemas psicológicos.)

6. Peter Green (fundador do Fleetwood Mac que sofreu problemas psicológicos e deixou as unhas crescerem de tal forma que ele não pudesse voltar a tocar guitarra.)

5. Sly Stone (um dos grandes nomes do funk uma vez foi a Londres a dez minutos de uma apresentação na Holanda dizendo que precisava “fazer compras”.)

4. Whitney Houston (a cantora de “I will always love you” foi uma vez a Israel porque tinha direito a ser “judia honorária”.)

3. Axl Rose (o líder do Guns ‘N Roses, além de adiar indefinidamente o lançamento de “Chinese democracy”, tem uma coleção de ataques de “prima donna do rock”.)

2. Brian Wilson (o compositor dos Beach Boys, que sofre de paranóia e esquizofrenia, passou três anos em uma cama convencido que o produtor Phil Spector iria matá-lo.)

1. Michael Jackson (para bancar todas as maluquices converteu um patrimônio de US$ 750 milhões em um débito de US$ 180 milhões.)


Fonte: [http://g1.globo.com/Noticias/0,,MUL6697-7085-6637,00.html]

A Cura da Loucura ou A Loucura da Cura Psicanálise e o Movimento Antimanicomial

Nos últimos dez anos, o problema da instituição psiquiátrica tem sido discutido por diversos setores da sociedade brasileira. Tendo se iniciado com um posicionamento dos trabalhadores de saúde mental, em 1987 nasce o Movimento Nacional da Luta Antimanicomial, se posicionando no sentido de negar o manicômio como forma de tratamento e de propor novas alternativas terapêuticas ao indivíduo portador de transtornos psíquicos. A partir de então, tem participado de iniciativas políticas de elaboração e discussão de Projetos Legislativos e, em âmbito executivo, de ações governamentais em tentativas de se criar políticas de saúde mental que prestem ao portador de transtornos psíquicos o respeito e cidadania que merecem. Além disso, temos recebido a publicação de livros discutindo aspectos jurídicos e técnicos da loucura recolocando questões como a da imputabilidade e das internações involuntárias em manicômios judiciários,

“uma instituição dividida entre a saúde e a justiça, entre o tratamento e a penitência – dicotomia radical responsável por discussões que ultrapassam as questões acerca dos direitos e deveres do Estado ou de cada sujeito. São questões que envolvem a vontade, o desejo, as possibilidades e os limites do sujeito.” (Battaglia, 1999, p. 18)

Por outro lado, percebemos que a população em geral ainda não conhece os termos tão bem discutidos a nível técnico. Ainda é difícil para pessoas que não vivem com a loucura dentro do círculo familiar aceitar idéias como a do fim do manicômio. A instituição da sociedade que poderia e deveria funcionar como meio de comunicação tem passado informações, no mínimo, equivocadas em relação ao tema. Se no início do movimento antimanicomial a imprensa teve um papel fundamental ao veicular histórias e imagens da barbárie que acontecia dentro dos muros do hospício, hoje tem contribuído para uma grande confusão de conceitos fora destes muros. Temos assistido paulatinamente a matérias que apresentam psicopatas como o ‘Maníaco do Parque’ e o ‘Estudante do Cinema’ como doentes mentais que apenas “fomentam a desinformação e reforçam preconceitos que atingem milhões de portadores das mais diversas doenças mentais de natureza não agressiva e anti-social” (Barros, 1999).

É na tentativa de ser uma contribuição a discussão antimanicomial e de, ao mesmo tempo, chamar a academia a assumir sua posição de formadora de opinião, que apresentamos esse trabalho. Pretendemos mostrar como a história do movimento esteve ligada e tem suas semelhanças com a história da psicanálise e a ajuda que a psicanálise presta a formação de significado da experiência do louco. Mas, antes disso, voltemos a quem é, na atualidade, base teórica para toda discussão acadêmica sobre loucura.

Michel Foucault (1926-1984), em seu História da Loucura na Idade Clássica (1972) nos mostra como a loucura substituiu a lepra como principal objeto de exclusão e supressão de elementos desta sociedade. Precisava-se de outro fenômeno que seria seu novo ‘bode expiatório’.

“Esse fenômeno é a loucura. Mas será necessário um longo momento de latência, quase dois séculos, para que esse novo espantalho, que sucede à lepra nos medos seculares, suscite como ela reações de divisão, de exclusão, de purificação que no entanto lhe são aparentadas de uma maneira bem evidente. Antes de a loucura ser dominada, por volta da metade do século XVII, antes que se ressuscitem, em seu favor, velhos ritos, ela tinha estado ligada obstinadamente, a todas as experiência maiores da Renascença.” (Foucault, 1972, p. 8)

Foucault, então, passa a descrever notoriamente um objeto do universo imaginário do homem renascentista, a Nau dos Loucos. Toda a realidade e simbolismo da Nau dos Loucos é apontada para o caráter desconfortante e sempre presente do louco na Renascença. Mas não é esse o enfoque que queremos dar ao simbolismo renascentista.

Foucault cita um quadro de Hieronymus Bosch[1] baseado nesta concepção da Nau dos Loucos e outro quadro chamado A Cura da Loucura (1475-1480). O subtítulo do segundo, Extração da Pedra da Loucura, faz referência a um

“recurso ‘terapêutico’ razoavelmente comum na Idade Média. Entretanto, Bosch pintou uma flor como o objeto que está sendo removido. A flor é uma tulipa que, nos Países Baixos é uma metáfora para ser louco. É comum para alguém em estado de loucura ser chamado de ‘cabeça de tulipa’.” (Web Gallery of Art, 1996)

Gostaríamos de usar essa imagem para ilustrar nossa discussão da loucura como não sendo uma doença e da tese que a busca pela ‘cura’ da loucura nos afasta de outro aspecto: que a loucura já contém em si a própria cura.

‘Formas de tratamento’ como a do quadro não foram específicas de seu tempo como sabemos por diversas descrições do interior dos manicômios. Hoje, não se tenta ‘tirar pedras da loucura’, mas pode-se dizer que ‘joga-se pedras’ na cabeça dos loucos com os tratamentos a base de neurolépticos (sedativos do Sistema Nervoso Central), eletrochoques (verdadeiros ‘curtos-circuitos’ cerebrais), insulinoterapia (deixa o paciente em coma) e ‘em último recurso’ a lobotomia, como se a morte, destino da maioria dos internos, não fosse o último recurso’. Já passamos por várias tentativas de se reformar a instituição psiquiátrica e continuamos a buscar as causas das tais doenças mentais. Tem-se usado o fato de medicamentos tornarem a vida dos ‘doentes’ mais tolerável como argumento de que existe uma causa orgânica para todos os males mentais e que é apenas uma questão de tempo para se chegar a tais causas. Mas, tais medicamentos apenas atuam sobre efeitos do efeito e na maioria dos casos apenas aliena mais ainda a personalidade do indivíduo quando não a nega totalmente, no caso da ‘terapêutica’ do manicômio.

Mas, nem sempre foi assim. No mundo antigo e ainda na Idade Média “o louco era alvo de certo temor, de um terror sagrado. [...] Até ao Século da Razão, a loucura encontrava-se mais ou menos associada à vida pública ou, em rompimento com esta, associada a uma ordem sagrada” (Bosseur, 1976 [1974], p. 26). Sabemos por Foucault, como já havíamos dito, que essa perspectiva se altera no séc. XVII quando são criadas as primeiras instituições asilares onde os párias da sociedade, incluindo-se ali os loucos, eram presos. Com a Revolução Francesa (e todo o seu contexto político), aparece Philippe Pinel e seu ‘tratamento moral sem correntes’, mas ainda cerrados dentro dos muros do manicômio.

Apenas no século XIX surge a psiquiatria.

“Kraepelin [1856-1926] vai apresentar [1893-1899] ... minuciosas descrições clínicas de jovens esquizofrênicos (o termo ‘esquizofrenia’, aliás, só será proposto mais tarde, por Bleuler, em 1911) [...]: perturbações da associação de idéias (dissociação, discordância), da afetividade (desestima, indiferença) e dos contatos com o mundo exterior (recusa de contato, autismo). [...] A psiquiatria clássica ainda se refere a essas noções.” (Bosseur, 1976 [1974], p. 27)

Com o surgimento da psicanálise, muito do que era considerado ininteligível ou simplesmente ignorado pela ciência médica da época foi levado a sério por Freud. Ele tentava compreender o significado dos sintomas histéricos, de fobias e neuroses. “Uma série de fenômenos de nossa vida psíquica adquiria sentido: os atos falhos, os esquecimentos, os sonhos. O inconsciente impunha-se como um outro componente do nosso psiquismo – tal como a dinâmica libidinal” (Bosseur, 1976 [1974], p. 94).

É aqui que podemos apontar para algumas semelhanças da história da psicanálise com as origens do Movimento Antimanicomial. Este movimento está intimamente ligado com o trabalho de Franco Basaglia na Itália e este se identifica com todo um ‘discurso antiinstitucional, antipsiquiátrico (isto é, antiespecialístico)’ (Basaglia, 1985 [1968], p. 9), mas vai além desse como o próprio Basaglia alerta em seu A instituição negada. Mas a importância do movimento antipsiquiátrico é sempre citada por todos que se aventuram pelos conceitos e terapêuticas da loucura. Em Introdução a Antipsiquiatria, Chantal Bosseur afirma ‘o método de Freud e o dos antipsiquiatras têm numerosas analogias” (Bosseur, 1976 [1974], p. 94). O que Freud fez com os histéricos, os antipsiquiatras fizeram com os esquizofrênicos. O meio médico não suportava, ou mais, não procurava compreender os histéricos. A família, a comunidade e o meio médico suportam tão mal os psicóticos, e quando o suportam, não o compreendem. Os antipsiquiatras passaram a levar a sério e procurar entender sua experiência (conceito fenomenológico fundamental para se entender o trabalho dos antipsiquiatras se contrapõe ao conceito de comportamento da psicologia experimental).

Segundo Bosseur, os principais representantes da antipsiquiatria inglesa, Ronald Laing, David Cooper e Esterson se submeterama psicanálise, mas não se tornaram psicanalistas (Bosseur, 1976 [1974], p. 49). Mesmo com todas as críticas que fazim direcionadas a psicanálise, principalmente quando ligada a psicopatologia, o método de Freud os influenciou profundamente. A teoria passa por um reexame, mas não é rejeitada, por outro lado, o processo de ‘cura’ analítica, pelo caracter dialético da transferência, será sempre usado por Laing. A articulação entre Freud e Laing é feita principalmente por Malanie Klein e sua escola. A compreensão das psicoses de adultos tornava-se possível graças às descobertas feitas a partir da psicanálise de crianças.

Freud evitou ao máximo entrar na teorização sobre as psicoses, mas quando Jung (1912) questionou a aplicabilidade da teoria da libido para explicar as doenças como a esquizofrenia ele se viu “obrigado a entrar nessa última discussão, da qual gostaria de ter sido poupado” (Freud, 1914, p. 96). Em seu artigo Sobre o Narcisismo: Uma Introdução, apresenta o conceito de narcisismo para explicar o afastamento por esquizofrênicos da realidade. Um narcisismo primário e normal que seria o complemento libidinal do egoísmo devido ao instinto de autopreservação. Freud afirmava que parecia que o parafrênico (termo preferido por ele aos esquizofrêncicos) retirava sua libido de outras pessoas e coisas do mundo externo, sem substituí-las por outras nas fantasias. Em conseqüência deste desvio de seu interesse do mundo externo, eles “se tornam inacessíveis à influência da psicanálise e não podem ser curados por nossos esforços” (Freud, 1914, p. 90). Entretanto, neste artigo tão importante para o desenvolvimento da teoria freudiana ele reconhece que este afastamento ainda precisaria ser melhor caracterizado. Uma década depois, Freud escreve dois artigos, Neurose e Psicose e A Perda da Realidade na Neurose e na Psicose, onde aprofunda na etiologia das psicoses e neuroses e na diferenciação entre as duas.

Como comentamos acima, os antipsiquiatras contestam esse caráter patogênico. Todas as grandes figuras deste movimento tinham um histórico de questionamento político e humano:

“Todos os contestadores eram, aliás, marcados por uma trajetória que ia da luta anticolonial ao transculturalismo, passando pelo engajamento militante. Gregory Bateson era antropólogo, David Cooper era psiquiatra e havia combatido o apartheid na África do Sul, Franco Basaglia era membro do Partido Comunista Italiano. Quanto a Ronald Laing, havia se tornado psicanalista depois de ter praticado a psiquiatria na Índia, no exército britânico.” (Roudinesco (org.), 1994, p. 12)

Foucault, por outro lado, era um teórico, um filósofo, nunca havia vivido entre os loucos, mas compartilhava com os antipsiquiatras da idéia que os loucos não sofrem de uma doença mas sim, de opressão de uma sociedade que não os compreende.

“Para esses rebeldes, a loucura não era absolutamente uma doença, mas uma história: a história de uma viagem, de uma passagem ou de uma situação, das quais a esquizofrenia era a forma mais aperfeiçoada, poque traduzia em uma resposta delirante o desconforto de uma alienação social ou familiar.” (Roudinesco (org.), 1994, p. 12)

Ao longo dos anos após sua publicação, o livro de Foucault foi alvo de inúmeras críticas. Psiquiatras, psicólogos e historiadores da psicopatologia não aceitavam a idéia de verem um de seus principais objetos de estudo ser descrito não como “um fato de natureza mas de cultura” (Roudinesco (org.), 1994, p. 15). Porém, várias destas discussões apresentaram argumentos importantes ao conceito de loucura. Filósofos e historiadores apresentaram argumentos interessantes quanto a visão de Freud na obra de Foucault. No livro Foucault: leituras da história da loucura são reunidos ensaios apresentados no IX Colóquio da Sociedade de História da Psiquiatria e da Psicanálise, que teve como tema a História da loucura, trinta anos depois. Nele podemos verificar uma parte da controvérsia em torno do Cogito de Descartes, centrada principalmente na figura de Jacques Derrida e a contribuição do próprio Derrida ao colóquio, desta vez, não mais sobre o Cogito mas sobre as visões de Freud e da psicanálise na obra de Foucault.

Um nível além da discussão sobre Foucault e em conjunto com os antipsiquiatras vem a possibilidade de cura da loucura. Quando se acredita que a loucura é um sintoma de uma alteração biológica inerente a pessoa, a cura é uma impossibilidade virtual. Concordamos que uma parte das pessoas com distúrbios psíquicos realmente sofem uma alteração do Sistema Nervoso, quando esta é presente ou latente desde o nascimento. Nestes casos poderíamos até mesmo falar de cura, quando lembramos o quanto o cérebro pode ser desenvolvido e modelado pela aprendizagem. Talvez, então, não seriam tão inacessíveis assim a psicanálise e a (re)-construção psíquica de si mesmos.

Mas, tão ou mais importante que as alterações biológicas são os casos nos quais a psicose é uma reação do indivíduo a uma realidade sufocante e alienante. Nos estudos apresentados pelos antipsiquiatras verifica-se que a chamada ‘doença mental’ poderia ser muito bem compreendida como uma reação a um ambiente que poderíamos dizer mais ‘doente’ que o ‘doente mental’. Podemos perceber aqui como esta reação é perfeitamente inteligível dentro do sistema e pode atuar como a ‘cura’ de um processo anterior que poderia ser considerado patogênico. Certamente neste tipo de estudo a contribuição da psicologia sistêmica seria muito apreciada para se estudar o desenvolvimento do indivíduo e do microcosmo familiar enquanto sistemas.

Esta tese não corrobora, muito antes pelo contrário, a tese que os ‘doentes mentais’ não tem responsabilidade por seus atos. Seguindo os preceitos de Thomas Szasz, os psicóticos que infrigem a lei o fazem tendo consciência de seus atos. É a motivaçãomoral e legal que os levou a cometer um crime que deve ser julgada pela sociedade.

Nesta mesma perspectiva, da loucura como cura, não podemos deixar de comentar a abordagem deste fenômeno feita pela psicologia transpessoal. Integrando conceitos da antropologia, da tanatologia, mitologia e religião comparada, sua prática diária envolve estados mentais incomuns que a psiquiatria tradicional diagnostica e trata como distúrbios mentais.

“Quando entendidas adequadamente e tratadas de maneira compeensiva, em vez de suprimidas pelas rotinas psiquiátricas padronizadas, essas experiências podem ter um efeito de cura e produzir efeitos benéficos nas pessoas que passam por elas. Esse potencial positivo é expresso pelo termo emergência espiritual, que é um jogo de palavras, sugerindo tanto uma crise [emergência no sentido de ‘urgência’], como uma oportunidade ascensão a um novo nível de consciência [emergência como ‘elevação’]”. (Grof & Grof, 1989, p. 11)

Ao que tudo indica, o tema loucura ainda será objeto de acaloradas discussões filosóficas, políticas e técnicas. A Universidade pode e deve contribuir para maior elucidação neste campo. Um esforço conjunto da área psiquiátrica, psicanalítica e psicológica é essencial para a compreensão deste fenômeno tão presente em nossa vida, que quanto mais energia gastamos para recalcá-lo maior é a força com a qual retorna.


Bibliografia

BARROS, Luiz Ferri de. Maníacos e Psicopatas. [online] Disponível na Internet via WWW. URL: http://www.fenix.org.br/agenda/artigos/maniacospsi.htm. 15 de janeiro de 1999.

BASAGLIA, Franco (Coord.). A Instituição negada: relato de um hospital psiquiátrico. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1985 [1968].

BATTAGLIA, Laura. A Portas Cerradas. Insight – Psicoterapia e Psicanálise, São Paulo: Ano IX, n. 97, p. 17-23, Jul. 1999.

BOSSEUR, Chantal. Introdução à antipsiquiatria. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1976 [1974].

FREUD, Sigmund. Sobre o Narcisismo: Uma Introdução. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976 [1914]. Vol. XIV. p. 89-119.

FREUD, Sigmund. Neurose e Psicose. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976 [1924]. Vol. XIX. p. 189-193.

FREUD, Sigmund. A Perda da Realidade na Neurose e na Psicose. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976 [1924]. Vol. XIX. p. 229-234.

FOUCAULT, Michel. História da Loucura na Idade Clássica. 3a. ed. São Paulo: Perspectiva, 1991 [1972].

GROF, Stanislav & GROF, Christina. Emergência Espiritual – Crise e Transformação. São Paulo: Cultrix, 1989.

Luta Antimanicomial Alagoana. Luta Antimanicomial. [online] Disponível na Internet via WWW. URL: http://www.movimentoantimanicomial.org.br/. 14 de maio de 1999.
(O servidor desta página está com problemas. Acesse este backup da internet: http://web.archive.org/web/www.movimentoantimanicomial.org.br/capa.htm)

ROUDINESCO, Elisabeth (org.).Foucault: leituras da história da loucura. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.

SZASZ, Thomas. O Mito da Doença Mental. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1976.

Web Gallery of Art. The Cure of Folly (Extraction of the Stone of Madness). [online] Disponível na Internet via WWW. URL: http://gallery.euroweb.hu/html/b/bosch/painting/stone.html. 1996.

WHITAKER, Randall. Autopoiesis and Enaction: Observer Web. [online] Disponível na internet via WWW. URL: http://www.enolagaia.com/AT.html. 1997 [1996].

Arte e loucura

Para ser pintor, precisa ter cabeça muito boa, auto-segurança. Precisa agüentar ser chamado de louco sem se perturbar. Essa história de chamar artista de doido começou com a burguesia. Para o burguês, o que não for dinheiro é doidice. Para o poeta português Fernando Pessoa, existiam três classes: a ralé, que só pensa em dinheiro; uma classe intermediária, digamos classe média, cuja meta principal é o poder; e finalmente o que ele chama de aristocracia, voltada para a beleza. Não queria entrar em águas tão fundas, mesmo porque não tomo pé; não me lembrando se o poeta chegou a discutir o que cada uma dessas primeiras duas classes tinham como ideal de beleza, podendo significar, a beleza, tanto para a ralé como para o burguês, o dinheiro, por exemplo; podendo-se perguntar se dinheiro não gera poder ou vice-versa; ou se não tinham ideal nenhum, o que é mais plausível. Comparar arte e loucura devia ser crime inafiançável, tentativa de assassinato, sujeito a pagamento de indenização por danos morais. Quem confunde arte com loucura nunca viu um louco nem um artista. Loucura é inércia, é ausência, é oclusão mental, é doença séria, não dá para fazer comparação. Quando Van Gogh ficava louco não fazia nada, ficava inerte num canto, não tugia nem mugia, não pintava, não cortava a orelha, nem sabia que era Van Gogh. Arte é saúde, é acuidade, é inteligência. A loucura veda ao paciente a prática da arte. O louco não tem acesso ao mundo real ou mundo objetivo, não tem como apanhá-lo, é incapaz de discerni-lo, quanto mais de reconstruí-lo ou recriá-lo num todo orgânico que é o que se exige da obra de um artista, não bastando uma ou outra pontada alardeada como genial pelos sãos, tanto que Picasso disse: “Se as maçãs de Cézanne não tivessem sido pintadas por Cézanne não tinham a menor importância”. Arte e loucura são fenômenos excludentes, são seres antagônicos, são substâncias que se repelem. Chamar um artista ou cientista de louco só é cabível como metáfora, como figura de retórica: mas não que se vá manter empalhado num museu de zoologia algum ser humano por ter sido chamado de águia ou de raposa.
Para ser pintor, precisa ter cabeça muito boa, auto-segurança. Precisa agüentar ser chamado de louco sem se perturbar. Essa história de chamar artista de doido começou com a burguesia. Para o burguês, o que não for dinheiro é doidice. Para o poeta português Fernando Pessoa, existiam três classes: a ralé, que só pensa em dinheiro; uma classe intermediária, digamos classe média, cuja meta principal é o poder; e finalmente o que ele chama de aristocracia, voltada para a beleza. Não queria entrar em águas tão fundas, mesmo porque não tomo pé; não me lembrando se o poeta chegou a discutir o que cada uma dessas primeiras duas classes tinham como ideal de beleza, podendo significar, a beleza, tanto para a ralé como para o burguês, o dinheiro, por exemplo; podendo-se perguntar se dinheiro não gera poder ou vice-versa; ou se não tinham ideal nenhum, o que é mais plausível.
O artista continuou a existir mesmo desempregado, mesmo tido como louco. Com a distância entre o artista e o novo mundo instalado pela burguesia, o burguês cada dia entendia menos, por não conviver, por não acompanhar a linguagem do artista, linguagem que seguia o seu curso natural. Essa distância deu lugar ao lance do “épater le bourgeois”, espantar o burguês, muito em moda até hoje. Um pintor, um escritor, a quem já não podia satisfazer o lugar-comum e que procurava uma forma pessoal de exprimir-se, incorporando à sua arte as experiências de outros povos, por exemplo, agora ao seu alcance, ou assumindo postura mais condizente com o mundo atual, parecerá louco ou espertalhão, causará esse espanto.
Uma tentativa de fazer do artista um sujeito normal seria botá-lo para trabalhar, produzir algo de útil, servindo aos novos senhores, fabricando embalagens, dedicando-se à estamparia, emblemas, propaganda, arrumação de prateleiras de supermercado, até fazendo desenho de navio e avião, casas, edifícios, carros, numa reintegração como a que ocorrera na época do Barroco, desde as fachadas das igrejas às casulas e navetas, como queria a Bauhaus, Alemanha, 1919, escola dirigida pelo arquiteto Walter Gropius, a chamada “arte funcional”, batizando-se de designer o novo artista. Cito sempre o caso do pernambucano Aloísio Magalhães. Ele compartilhou essa idéia, de o artista servir à indústria e ao comércio, aos bancos, às empresas, como antes servia à Igreja e à nobreza, empenhando-se tanto nisso a ponto de fundar a até hoje respeitada Escola Superior do Design, no Rio de Janeiro. Mas no final da vida, curta pelo muito que ainda podia fazer e parecendo longa pelo muito que fez, tinha voltado a desenhar coqueiros no fundo do quintal aqui em Olinda, a lápis, reaprendendo a desenhar para si. Perguntado pelo amigo Joaquim Falcão sobre o design, respondeu: “Nunca mais”.

Quer dizer, por enquanto o artista continuará desempregado. E louco. Desempregado de fato e louco aos olhos dos filisteus.